Diz-se que o amor de mãe é o maior que existe, e poucos são os que discordam disso. No entanto, o que muitos não sabem é que o amor de uma mãe nem sempre é construído durante a gestação, pois pode ter origem bem depois do nascimento da criança. É o que vivem diariamente as mulheres que adotaram seus filhos.
É o exemplo de Roseli Zaccharias, 58 anos, mãe da Viviane, de 28 anos. O amor entre elas nasceu somente quando Viviane tinha dois anos e saiu de um orfanato em Piedade e foi morar na casa da enfermeira. “Eu era casada há dez anos e ainda não tinha filhos. Não conseguia engravidar e, desde que casei, nunca tinha evitado. Nem eu, nem meu marido tínhamos algum diagnóstico de infertilidade, mas não conseguíamos engravidar”, lembra.
Com isso, o casal, na época, se envolveu em muitas brigas e acabou se separando. “Meu marido é de Piedade e a gente sempre visitava o orfanato onde ela estava. No fim do ano, ele apadrinhou a Viviane, foi até mim e disse: ‘se você me aceitar de volta, a gente adota ela’. Eu voltei feliz da vida”, afirma. E a chegada de Viviane foi a alegria da casa, segundo Roseli. “Tudo era entorno dela. Tanto que eu mesma desencanei de engravidar, mas aconteceu. Além dela, tenho outros dois filhos, estes biológicos”.
Adaptação
Roseli conta que a adaptação de Viviane nos primeiros meses de adoção não foi fácil. Segundo a enfermeira, quando criança, Viviane morava na rua, e trouxe os costumes que tinha na rua para dentro de casa. “Ela fazia as necessidades pela casa, revirava o lixo. Uma vez, falei para ela ir dormir, e ela pegou o jornal, estendeu no chão e deitou”. Viviane também não falava, já que não teve estímulos até ser adotada, e teve de ir regularmente ao pediatra, pois estava com vermes. “Hoje ela não tem memória disso, mas sempre soube. Eu sempre contei para ela a história de uma menininha que andava na rua e foi adotada. Ela sempre soube que é adotada e lida muito bem com isso.
A mãe conta que a adaptação de Viviane demorou cerca de quatro meses. “Depois foi tudo muito natural. Eu me entreguei de corpo e alma a ela, a cuidar dela, e ela trouxe alegria para nós”. Hoje, aos 28 anos, Viviane ainda mora com a mãe, é advogada e está cursando pós-graduação. “Acredito que tenha cumprido a missão. Ela tem uma personalidade de ser mais quieta e reservada, mas é uma pessoa boa, mora bem, tem tudo o que quer”, ressalta. Agora com três filhos, Roseli não acredita haver diferença entre o amor de mãe adotiva com o de mãe biológica. “O amor é o mesmo, a preocupação é a mesma. Não vejo diferença. Claro que hoje ela está mais velha, então é diferente, mas eu acho que no fim, deu tudo certo”.
Presente
Maria Aparecida Borges tem 52 anos e também é enfermeira. Ela tem uma filha de dez anos, chamada Helena, que foi adotada quando tinha apenas três dias de vida, e teve um motivo especial para fazê-lo: Cida, como é mais conhecida, também é uma filha adotiva.
“Eu morava na cidade de Monsenhor Paulo, no interior de Minas Gerais, e minha vida era muito difícil. Minha mãe era pobre e tinha 13 filhos para cuidar. Ela vivia na lavoura e não conseguia dar conta de todos, então, com 9 para 10 anos, eu fui morar com minha família adotiva”, afirma.
Cida, durante toda sua vida, conviveu com as duas famílias, e teve o sonho de também adotar uma criança. Ela, no entanto, não define sua atitude como de retribuição. “Na verdade, quem ganhou muito fui eu. Primeiro quando fui adotada, depois quando adotei. Foi a melhor coisa que aconteceu na minha vida”, destaca.
Cida também faz questão de contar a história de Helena. Ela, inclusive, mantém contato frequente com um irmão biológico, que foi adotado por outra família. “Eles estão sempre juntos, um vai na casa do outro, às vezes saímos. No futuro, quero dar a oportunidade dela conhecer a mãe biológica, se ela quiser”, ressalta. Ela conta que no começo, tinha medo de que Helena pudesse ser raptada pela família biológica. “Tinha medo de haver um arrependimento e que alguém fosse buscá-la. Mas foi mágico. Eu me realizei muito. Se tivesse uma vida mais tranquila, com mais possibilidades, adotaria mais uma criança”.
Para ela, também não há diferença entre o amor de uma mãe adotiva para uma mãe biológica. “Às vezes eu esqueço que ela é adotada e acho que ela tem a genética da minha família, por exemplo. Estava conversando com a minha sobrinha, e me peguei pensando nisso. Para mim é exatamente igual”. Agora, Cida sonha com o futuro da filha. “Eu quero que ela estude, cresça e tome um bom rumo na vida. Espero que ela seja ainda mais feliz do que eu fui. Sou muito grata a Deus pelo que aconteceu comigo”.
Histórias como essa mostram que, desde que haja um filho nos braços, toda mulher tem, dentro de si, o amor de mãe.
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